A escravidão não acabou, só mudou de endereço
23 Agosto 2008 at 11:31 am (Notícias) (acampamentos, arma de guerra, atrocidades, áfrica, Bukavu, carbonizado, Congo Army, Ejército congoleño, Embarazo, escravas, escravatura, escravidão, estupro, Exército do Congo, Frente Democrática para a Libertação de Ruanda (FDRL, Gasone, gravidez, Guerra, Guerras, história de um seqüestro, igrejas, instituições públicas, Kaniola, kivus, milícias hutus, Mwirama, Nsimire Aimerida, o poder em Ruanda, Panzi, rd congo, República Democrática do Congo., Robert, Século XXI, seqüestros, soldados, violacion)

A escravidão não acabou, continua até hoje.
A escravidão continua até hoje, apenas mudou de endereço. Em pleno Século XXI, apesar de pouco ou nada se falar sobre o assunto, as milícias hutus conhecidas como FDRL (Frente Democrática para a Libertação de Ruanda), seqüestram adolescentes e os levam a acampamentos situados na República Democrática do Congo, os quais dizem lutar para recuperar o poder em Ruanda.
- Havia uns 70 soldados e 20 meninas, entre elas estava eu – explica Nsimire Aimerida, que acaba de cumpletar 18 anos.
- Como você passava o dia ?
- Cozinhava, fazia limpeza. Se eu não fizesse o que eles queriam, me pegavam.
- Você possuia um bom relacionamento com as outras meninas ?
- Se não tivesse sido por elas, eu teria me suicidado.
- Os solados abusavam de você ?
- Apenas dois, os que tinham me raptado de casa.
- Você lembra do nome deles ?
- Um se chamava Robert e o outro, Gasone.
- Qual era a idade deles ?
- Mais ou menos como ele – responde Nsimire, apontando Selemani, o tradutor dela, que tem 48 anos.
- Alguma vez lhe trataram bem?
- Sim, mas eu não confiava neles. Não esqueca que haviam sido eles que haviam assasinado o meu pai e os meus irmãos.
História de um seqüestro
Nsimire havia completado 13 anos quando a raptaram da sua casa durante a noite. Sua mãe, que também se chama Nsimire, e que tem 37 anos, lembra-se do ocorrido: “Viviamos em Kaniola, em um povoado chamado Mwirama. Vários homens entraram na nossa casa ao amanhecer. Amarraram-se, me levaram para fora e abusaram de mim. Eu escutava gritos no interior da casa mas não sabia o que estava acontecendo”.
Antes de partir para a selva com os quatro crianças da família, os soldados atearam fogo no local. O marido de Nsimire moreu carbonizado. “Quando eu pude me soltar, pouco havia restado da casa. Corri com todas as forças ao corpo do meu esposo e o peguei. Depois andei como pude, porque haviam pegado bastante nas minhas pernas e na coluna, em busca de ajuda”.
Nsirime vagou por igrejas e instituições públicas. Havia perdido tudo. E não sabia se algum dos seus quatro filhos continuavam vivos. A resposta chegou um ano mais tarde, quando o Exército do Congo atacou o quartel da FDRL libertando vinte jóvens que permaneciam como escravas.

Mãe, filha e neta
“Por uma parte estava feliz de encontrar a minha filha com vida, por outra, me sentia destroçada por saber que meus outros filhos haviam morrido”, explica Nsimire (mãe), que também nesse momento descobriu que seria avó, pois Nsimire (filha) estava no quinto mês de gravidez.
“Na noite que nos sequestraram, primeiramente os soldados mataram o meu pai com um disparo, quando ele tentou nos proteger. Depois, usaram eu e meus irmãos para carregar até o quartel os utensílios da nossa casa. No caminho foram matando um-a-um. Apenas eu sobreviví”, lembra Nsimire (filha).
Deus te ama
Agoravivem em um barracão situado nas bandas de Bukavu. O pouco dinheiro que possuem, ganham-no vendendo verduras no mercado de Panzi. Passam boa parte do dia juntas: mãe, filha e neta.
- Você chega a pensar que é o pai da sua filha, um dos homens que lhe causou tanto sofrimento a você e sua família?
- Não, apenas penso na minha filha, e o único que quero é o melhor para ela. Tirá-la daqui, da pobreza, dar uma vida melhor a ela. Não penso em outra coisa.
A menina corre, brinca com outras crianças na rua, enquanto fazíamos a entrevista. Toda vez que eu visito a suamãe e a sua avó, ela se mostra sorridente, carinhosa. Quando eu pergunto o que quer dizer o nome dela, Asima, explicaram-me: “Deus te ama”.
Tradução e Adaptação do Artigo “La guerra contra las mujeres del Congo: Asima, amada por Dios” do Blog Viaje a La Guerra
______________________________
Apesar de todas as atrocidades que aconteceram com esta e mais outras milhares de pessoas, Nsimire não perdeu a fé em Deus, tanto que colocou o nome da menina como Asima, que significa Deus te ama.
Por isso não reclame das coisas sem olhar para os lados.


































